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Há
artistas que são autores da própria obra.
Outros, há, vítimas da mesma. Parece-me
o caso de Manoel Costa. É tão furiosa
a irrupção de sua pintura, que o subjuga,
domina, impele para estilos vários, deslumbra.
O ritmo e a intensidade das pinceladas refletem a fúria
eruptiva da vontade de pintar com sua emoção
embutida. A pintura é autora de Manoel Costa
e não o oposto. Quando emergem-lhe tendências,
impulsos ou influências, nem bem dominou-as e
já aparecem postas em ação n'algum
quadro ou fragmento de tela. Quando parece que "enfim
se encontro", nova transformação,
enlouquecimento da luz interior, esgar da forma, retornos
obsessivos a temas iniciais.
So falta a Manoel Costa enveredar pelo pós-moderno.
parece não querer, como bom escravo do belo:
pequenas tentativas na linha da colagem e logo o retorno
à paixão figurativa e de meritório
teor social, o trabalho anônimo do povo em atividades
que a exploração desenfreada e o desenvolvimento
tecnológico tratam de matar a cada dia.
A paixão figurativa é ajudada pelo sentido
de espetáculo pictórico do qual não
se afasta. Nenhum fascínio, porém, pelo
fácil ou, ao revés, pelo conceitual ou
introvertido.
Manoel Costa não parece interessado num discurso
sobre a pintura: ele é pintado por ela, ânsias
de artesão com emoções de artista
com ganas de expressar, usar o material, desafiar-se
a cada momento, não reter fluxos interiores por
excesso de conceitos ou tremores intelectuais. Envereda
pela cor, domina a pincelada, não parece vacilar
diante de excesso de autocrítica castradora.
Pretende a compreensão, quer comunicar-se, flagrar
a cor e a luz de suas manifestações, pouco
se importando com os temas repetidos; quer dar o seu
testemunho sobre tudo e todos: o testemunho, não
a revelação. Vítima da alta vocação,
do testemunho, espécie de irmão leigo
de uma ordem religiosa de crentes na emoção
da pintura, sob o império do tom, Manoel Costa
cumpre o desiderato maior do criador: colocar técnica,
vocação, talento, consciência social
e política a serviço da arte sem a pretensão
de reformá-la, descobrir-lhe rumos ou repetir
os discursos oriundos dos seus centros de poder. Pretende
apenas pintar, como um gesto natural, algo que flui.
Daí a vibração de luz e de forma
que lhe resulta sem dificuldade, contração
ou empostações pretensiosas. A obtenção
da forma sem esforço, com imediata decodificação,
dá-lhe a qualidade de um artista que alcança
seus objetivos pela sabedoria, sinceridade e simplicidade
de não os haver colocado longe de si. Esta dimensão
não onipotente, resultante de seu trabalho, dá-lhe
definição, concreção, aceitação,
perenidade, além do adorável sabor de
Brasil que o situa entre os pintores da resistência
cultura, entre os não-colonizados, num país
de tantos neocolonizados...
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